Ler a luz de uma janela sem aparelhos
Conto quantas horas o sol bate no chão e uso a sombra da minha própria mão; chega para decidir onde cada vaso passa o ano.

Não tenho medidor de luz nem aplicação nenhuma para isso, e não sinto falta. Conto as horas de sol direto que caem no chão da sala e uso a sombra da minha própria mão por cima da folha, e com estas duas coisas decido onde cada vaso passa o ano. Não é um método de precisão, mas é bem melhor do que me fiar na ideia de que um canto é claro, que foi o que me deu mais desgostos desde que tenho plantas.
O essencial
- Conte as horas de sol direto que batem no chão, em janeiro e em julho: são números diferentes na mesma janela.
- Ponha a mão a um palmo da folha, entre a luz e a planta: sombra de contorno nítido é sol direto, sombra fraca é luz de céu.
- Meça em palmos a distância de cada vaso ao vidro e escreva onde ficou, porque ao fim de um mês já não me lembro.
- Recue os vasos da janela virada a sul antes de julho e aproxime-os outra vez em dezembro.
- Olhe para o tamanho e a cor das folhas novas ao fim de três ou quatro semanas: é a resposta da planta, e chega mais tarde do que a minha pressa.
Duas janelas, contadas ao longo do ano
A minha casa tem uma janela virada a sul e outra virada a norte, e durante muito tempo tratei as duas como se fossem parecidas. Comecei a contar as horas de sol direto que entram no chão, marcando com uma caixa de sapatos o sítio onde a mancha de sol acabava de hora a hora, num sábado de cada mês. Em janeiro, a janela a sul apanha sol direto desde meados da manhã até ao princípio da tarde, umas quatro horas. Em julho, quase o dia inteiro: sete ou oito horas, e com o sol a bater de frente no vidro ao meio-dia.
A janela a norte é um caso à parte. Entre novembro e fevereiro não recebe um único raio de sol direto. Não é escura — entra luz de céu, cinzenta, de sobra — e é por isso que engana. Aprendi a tratá-la como um sítio onde só ficam plantas que toleram pouca luz, e nada mais. Quando experimentei pôr lá uma echevéria, ela esticou o caule em três semanas à procura do que não havia, e a distância entre as folhas ficou o dobro. Não morreu, mas ficou uma planta diferente da que eu queria.
A sombra da mão como medida
Da mesma maneira que se lê a sombra para saber se um dia de praia vai render, dá para ler o que chega a uma folha. Ponho a mão a um palmo acima da folha, entre a luz e a planta, e olho para a sombra que cai nela. Se o contorno estiver nítido, com dedos bem desenhados, ali bate sol direto. Se a sombra for uma mancha sem contorno nenhum, é luz de céu: entra muita, mas não aquece nem faz sombra a sério. E se quase não houver sombra, é porque aquele ponto está longe da janela e recebe pouco.
Uso isto em horas diferentes do dia, porque uma planta não apanha o mesmo de manhã e à tarde. Na janela a sul, às nove da manhã de janeiro, a sombra da mão sai desenhada; às cinco já não sai nada. No verão, ao meio-dia, sai tão curta e tão escura que até assusta. Aprendi também a não medir com o sol a pino, porque ao meio-dia de julho a sombra cai a pique e diz-me pouco sobre o resto do dia. O que interessa é o conjunto das horas, não o instante.
O que a planta diz ao fim de um mês
A luz que chega é uma coisa; o que a planta faz com ela é outra, e essa leva tempo. Guardo sempre na cabeça três sinais, e nenhum deles aparece no dia seguinte a mudar um vaso de sítio. O primeiro é o comprimento dos entrenós, o espaço entre uma folha e a seguinte: quando cresce muito, é sinal de que os nós se estão a afastar à procura de luz. O segundo é o tamanho das folhas novas em comparação com as antigas. O terceiro é a cor, e é o mais traiçoeiro, porque uma folha pálida tanto pode ser falta de luz como sol a mais.
Foi por causa da cor que me enganei durante meses. Tinha um espatifilo num canto claro, a três metros do vidro, com folhas enormes e muito verdes, e concluí que estava tudo bem. Estava, mas porque aquela planta perdoa. Foi a monstera que me deu a resposta certa: afastei-a do vidro por causa do móvel e ela começou a deitar folhas pequenas, inteiras, sem os rasgos de sempre. Bastou encostá-la outra vez à janela para os rasgos voltarem, folha a folha, ao longo da primavera seguinte.
Os cantos da casa que enganam
Há três sítios na minha casa que parecem claros e não são. O primeiro é o canto com paredes brancas e chão claro: os olhos gostam, mas aquilo é luz refletida. O segundo é a mesa da cozinha, debaixo de uma lâmpada que fica acesa ao fim da tarde — a luz artificial ajuda, mas não substitui o que entra pela janela, e à noite a planta não trabalha como de dia. O terceiro é o corredor, onde tudo parece bem porque é largo e pintado de branco, e onde não há janela nenhuma.
Descobri o segundo da pior maneira, quando mudei vasos para a cozinha por serem bonitos, no inverno, e os vi estagnar até abril. Também aprendi que uma cortina fina muda tudo. A minha sala tem uma cortina de linho que fica fechada em julho para o sol não bater nos móveis, e os vasos que estão atrás dela recebem muito menos do que recebiam antes. Não é razão para a tirar: é razão para aproximar os vasos, dois ou três palmos, do que sobra da luz.
Quando a luz não chega, e onde eu paro
Aceitar que um canto não serve é mais útil do que tentar salvá-lo. Quando conto as horas e vejo que uma janela a norte não apanha sol direto durante meses, não compro nada para compensar e não invento truques: ponho ali as plantas que toleram pouca luz e levo as outras para a janela virada a sul, onde há sol a sério. Se um vaso ficar com as folhas novas cada vez menores e os caules compridos, aceito que o sítio está errado e mudo-o. É uma decisão, não um remédio.
Não uso lâmpadas próprias para plantas, não sei avaliar as horas de luz artificial necessárias nem quero ter isso em casa. Também não meço a luz com nada nem faço contas de percentagens: conto horas de sol no chão e olho para a sombra da mão, que é o que consigo fazer sem aparelhos. É aqui que paro. Se, mesmo depois de mudar o vaso de sítio, a planta continuar a piorar durante um mês, o problema pode já não ser a luz, e nessa altura pergunto a quem trabalha nisto todos os dias em vez de continuar a experimentar.
Erros que já cometi
- Guiar-me pela claridade do canto em vez de contar horas de sol: a echevéria esticou o caule em três semanas e ficou com o dobro da distância entre as folhas.
- Medir a sombra da mão ao meio-dia de julho, com o sol a pino, e concluir que a janela não servia para nada.
- Deixar os vasos encostados ao vidro virado a sul em julho e apanhar bordos castanhos nas folhas novas.
- Mudar uma planta de uma vez da janela a norte para a janela a sul, em pleno verão, e queimar folhas que estavam habituadas à sombra.
- Achar que uma folha pálida é sempre falta de luz — e regar a mais uma planta que estava só com sol de mais.
- Confundir a luz da lâmpada acesa ao fim da tarde com luz que sirva, e deixar vasos na cozinha todo o inverno a parar de crescer.