Esvaziar o prato depois de regar
Vinte minutos depois de regar levanto o vaso e deito a água fora. Foi assim que acabei com os fundos encharcados e as raízes escuras.

Vinte minutos depois de regar, levanto o vaso e deito a água do prato fora. É o gesto mais pequeno de toda a minha rotina e foi o que me tirou os fundos encharcados de casa. Durante anos deixei aquela água lá ficar, com a ideia de que a planta a bebia depois, e o que ela bebia era o resto: o vaso ficava com as raízes no molhado e o fundo apodrecia devagar, sem eu dar por isso. Agora conto os vinte minutos e trato o prato como se fosse a última coisa da rega, tão obrigatória como a própria água.
O essencial
- Regue, espere vinte minutos e deite fora a água que ficou no prato; não conte com a planta para a beber depois.
- Levante o vaso do prato antes de o esvaziar, para não entornar água na prateleira nem nos móveis.
- Nos cachepots sem furo, deixe o vaso escorrer no lava-loiça e só o ponha lá dentro depois de deixar de pingar.
- No inverno, com a terra a secar devagar, esvazie o prato e verifique novamente no dia seguinte.
- Se o prato continuar cheio, é sinal de terra compacta ou de vaso grande de mais, e há que ver o que se passa.
A água que ficava dois dias no prato
Regava sempre da mesma maneira: água até ver sair pelos furos, e pronto. O prato ficava com aquela água escura e eu deixava-a lá, convencida de que a planta a ia beber nas horas seguintes, como se o prato fosse uma reserva. Nunca verifiquei se alguém a bebia. Um inverno, ao levantar um dos vasos para limpar a prateleira, vi que o fundo estava escuro e que a terra junto aos furos tinha um cheiro forte a mofo. Levantei o vaso e o prato estava cheio de água que já tinha dois dias.
Foi a partir daí que percebi o que aquele prato fazia. A água não desaparecia: ficava ali, à espera, e mantinha húmida a parte de baixo da terra, onde estão as raízes mais grossas. Em Coimbra, no inverno, com a casa a 12 a 14 °C de madrugada e a janela a norte sem sol direto, aquela água não evaporava em dois dias. As raízes ficaram escuras e moles, e a planta, que era uma pothos bem crescida, começou a perder folhas de baixo para cima. Hoje, quando vejo um prato cheio, já sei o que ele quer dizer.
Os vinte minutos, e porque não é um número exato
Escolhi vinte minutos porque foi o tempo que me pareceu razoável a olho, e porque é fácil de contar enquanto faço outra coisa em casa. Não é uma medida de precisão: há dias em que são quinze e dias em que são meia hora. O que importa é que a água pare de sair antes de eu esvaziar o prato, e isso depende da terra, do tamanho do vaso e da temperatura da casa. Num vaso pequeno, com terra aberta, a água passa em segundos; num vaso grande, com terra compacta, pode levar bastante mais tempo.
Uso esses vinte minutos para outra coisa: dou uma olhada às folhas de baixo, ao pé do caule e à superfície da terra, e aproveito para rodar o vaso um quarto de volta se me lembrar. É um bocado de tempo bem gasto, porque estou já com o vaso na mão e a planta à frente dos olhos. Passados os vinte minutos, pego no prato com as duas mãos, inclino-o para o lava-loiça e deito a água fora. Não a guardo em nada, não a reaproveito, não a ponho noutro vaso: vai pelo ralo e pronto.
O prato, o cachepot e a prateleira
Nos pratos de barro, a água não se vê logo porque o barro é escuro, e por isso ponho o dedo no fundo antes de decidir que está seco. Nos pratos de plástico, vê-se à transparência e é mais fácil. Nos vasos que estão em cima de móveis de madeira, ponho sempre um prato largo por baixo, mesmo nos de plástico, para a madeira não apanhar a marca da água. Já deixei um anel escuro na estante de uma sala por não ter prato em baixo, e não consegui tirá-lo depois.
A maior dor de cabeça são os cachepots decorativos, que na maior parte das vezes não têm furo nenhum. Nesses, o que faço é tirar o vaso de dentro antes de regar, regar no lava-loiça, deixar escorrer bem e só voltar a pôr o vaso dentro do cachepot quando ele deixa de pingar. Se, por distração, o vaso ficar lá dentro molhado, esvazio o cachepot ao fim de uma hora e olho para o fundo à procura de água presa. Um cachepot com água parada é o mesmo que um prato cheio que eu não consigo virar.
No inverno, com a terra a secar devagar
No inverno este gesto muda um pouco. De novembro a março, com a casa fria e o ar húmido, a terra seca devagar e às vezes o prato tem água outra vez no dia seguinte, sobretudo nos vasos maiores e nos que estão mais à sombra. Nesses, não mexo em nada nesse dia: já esvaziei o que saiu da rega e não volto a regar só porque o prato voltou a ter água, porque o que ficou lá é o que a terra não conseguiu beber. Espero que o vaso fique leve na mão e só então rego outra vez, e esvazio o prato outra vez.
No verão é ao contrário. Com a casa a mais de vinte e cinco graus, em julho, o prato fica seco em poucas horas e às vezes não tem nada para deitar fora, porque a planta e o calor trataram daquilo antes. Nesses dias há mais regas e menos pratos cheios. Nas plantas pequenas, em vasos de dez centímetros, também é raro sobrar água, porque o volume de terra é pouco e a água atravessa depressa. Se num vaso pequeno o prato ficar cheio todos os dias, é sinal de que a água atravessa sem molhar a terra, e o problema é lá dentro, não no prato.
Quando o prato engana, e onde paro
Nem sempre um prato cheio quer dizer a mesma coisa. Num vaso com furo entupido, a água não chega a sair e fica dentro da terra, e o prato aparece seco em cima e a terra encharcada em baixo. Já me aconteceu com terra que se soltou e tapou os furos por dentro. Ponho o vaso de lado, desentupo os furos com um pau fino e volto a regar devagar, para ver se a água sai. Num vaso grande de mais, o prato enche-se de água porque a terra sobra e ninguém a bebe, e aí o problema é o tamanho do vaso e não a rega.
Se, ao esvaziar o prato, sentir a terra à superfície já seca mas o vaso ainda pesado, não rego: espero. Se, em vez de água, encontrar uma teia fina à volta dos furos, ou pontos agarrados nos furos, isso pode ser bicho, e nessa altura paro e passo ao físico: isolar o vaso noutro quarto três semanas, passar as folhas por água corrente, cortar o que estiver muito atacado e deixar o ar circular. Não uso produtos, não sei dar concentrações nem garantias. Esvaziar o prato resolve muita coisa, mas não resolve tudo, e é aqui que paro e pergunto a quem trabalha nisto todos os dias.
Erros que já cometi
- Deixar a água da rega no prato durante dois dias, a pensar que a planta a bebia depois, e acabar com o fundo escuro e a cheirar a mofo.
- Regar no cachepot sem furo e deixar a água presa lá dentro, sem maneira de a tirar sem virar tudo.
- Pôr um vaso de plástico direto em cima de um móvel de madeira, sem prato, e ficar com um anel escuro que não saiu mais.
- Confundir um prato seco com um vaso bem regado quando os furos estavam entupidos por terra solta.
- Voltar a regar só porque o prato encheu outra vez no dia seguinte, no inverno, e afogar a planta sem necessidade.