Regar pelo peso do vaso
Levantar o vaso pelo fundo antes de regar evitou-me mais desastres do que qualquer calendário; o pulso aprende depressa o que é seco.

Levanto o vaso pelo fundo antes de decidir se rego. Não é um gesto de precisão e não me dá números: dá-me uma diferença de peso que a mão aprendeu a ler depois de dois invernos de casa húmida em Coimbra. Durante anos reguei ao domingo, todas as plantas de uma vez, uma volta completa pela casa com o regador na mão, e foi assim que o fícus-lira ficou com as raízes moles e perdeu metade das folhas. Desde que passei a levantar cada vaso antes de abrir o regador, deixei de ter plantas a apodrecer por baixo sem eu dar por isso. O calendário diz-me que dia é; o peso diz-me se a planta precisa.
O essencial
- Levante o vaso pelo fundo com as duas mãos, antes de olhar para a terra, para a folha ou para o calendário.
- Não compare vasos diferentes entre si: compare o mesmo vaso com o peso que ele tinha depois de regado.
- Terracota e plástico do mesmo tamanho pesam coisas diferentes; calibre a mão em cada vaso, um a um.
- Nas suculentas e nas plantas de folha grossa, espere que o vaso pareça quase vazio antes de regar.
- Na dúvida, não regue hoje: um dia a mais de seco faz menos estrago do que uma semana a mais de molhado.
O domingo em que afoguei um fícus
Reguei por dia da semana durante mais de um ano. Ao domingo à tarde pegava no regador de bico comprido e fazia a volta à casa: primeiro a fila da janela a sul, depois os vasos do corredor, e no fim os da cozinha. Todas as plantas, a mesma quantidade de água, chovesse ou estivesse o sol a bater no vidro. Durante muito tempo achei que isto era disciplina. Era só hábito, e não tinha nada que ver com o que as plantas precisavam naquela semana.
O fícus-lira da sala foi o que pagou a conta. Em novembro a terra ainda estava húmida da rega anterior, e eu regava por cima, porque era domingo. Ao fim de dois meses as folhas começaram a cair uma a uma, do meio para baixo, e o pé do caule estava mole. Quando tirei a planta do vaso, o fundo era um bloco escuro e húmido, com as raízes apodrecidas, e cheirava a mofo. Não havia praga nenhuma e não havia falta de luz: havia água a mais, dada em dia certo. Foi o fícus que me ensinou a levantar o vaso.
O que a mão sente
O gesto é simples: ponho as duas mãos em volta do vaso, junto ao fundo, e levanto-o. Não é preciso levantá-lo muito; dois ou três centímetros chegam. O que procuro é a diferença entre o que aquele vaso pesa cheio e o que ele pesa seco, e essa diferença só se aprende com repetição. No princípio achei que todos os vasos pesavam o mesmo e que isto não servia para nada. Ao fim de um mês já distinguia o vaso do pothos, que bebe depressa, do vaso da zamioculca, que passa semanas sem beber nada.
Não uso o dedo na terra como primeira medida, embora também o use às vezes. O dedo diz-me o que está à superfície, e à superfície a terra seca antes do que está a mais de um palmo de profundidade, que é onde vive a maior parte da raiz. O peso fala-me do vaso todo, incluindo aquele fundo que eu não vejo e que foi exatamente o sítio que me matou o fícus. Uso as duas coisas quando tenho dúvidas, mas é o peso que decide.
Cada vaso tem o seu peso
Os vasos de terracota pesam bastante mais do que os de plástico do mesmo tamanho, mesmo secos, e ainda mais quando estão molhados, porque o barro chupa água. Isso quer dizer que a minha mão não pode ter um valor único para toda a casa: tem de aprender cada vaso. Os vasos grandes, com terra molhada, chegam a pesar dez quilos ou mais, e nesses o peso não é um bom indicador — é difícil sentir a diferença com as mãos e é rápido demais para as costas. Nesses, e só nesses, volto ao dedo na terra.
O prato também conta. Um prato com água pesa, e se eu o deixar lá posso convencer-me de que o vaso está húmido quando o que pesa é a água que escorreu para fora. Por isso, levanto o vaso de cima do prato antes de o pesar, e seguro o prato de lado com a outra mão. Nos cachepots faço o mesmo: tiro o vaso de dentro antes de o levantar, porque o cachepot tem o peso dele e engana. São pormenores pequenos que demoraram a entrar-me na cabeça.
Quando o peso engana
Há alturas em que o peso me dá uma resposta errada, e aprendi a reconhecê-las. Depois de mudar uma planta de vaso, a terra nova ainda está solta e guarda mais ar: o vaso parece leve quando na verdade ainda tem água lá dentro. Nessa altura deixo passar duas semanas sem decidir pela mão e volto ao dedo. O contrário também acontece nas semanas de chuva, em Coimbra, quando a humidade do ar é tanta que a terra seca devagar e o peso quase não muda de um dia para o outro. Nesses períodos espreito a superfície e espero mais dois ou três dias.
Outro caso é a planta que está a recuperar de ter perdido folhas. Com menos folhas bebe menos, e o vaso demora mais a ficar leve. Se eu regar ao ritmo de antes, afogo-a precisamente quando ela está mais fraca. Foi o que me aconteceu com o espatifilo que murchou depois de uma mudança: continuei a regar como se ele ainda tivesse todas as folhas, e o pé acabou mole. Hoje, sempre que uma planta perde folhas, conto mais dois dias entre regas e levo o vaso para um sítio mais fresco, longe do vidro que à noite fica gelado.
O que fica de fora, e onde paro
Não rego pelo peso das plantas que estão em vaso sem furo, porque aí a água não tem para onde sair e o peso do fundo não me diz nada de útil: diz-me apenas que a água está presa. Nesses vasos, que hoje evito, o que faço é regar pouco de cada vez e olhar para a terra ao fim de meia hora. Nas plantas de folha muito fina e mole, que murcham em duas horas de secura, também não espero pelo peso leve: rego quando a superfície começa a ceder, e não quando o vaso parece vazio.
Se, ao levantar o vaso, encontrar raízes a sair pelos furos, ou uma teia fina e pontos agarrados na página de baixo das folhas, paro de pensar em rega e passo ao que é físico: isolo a planta noutro quarto durante três semanas, passo as folhas por água corrente uma vez por semana, corto o que estiver muito atacado e deixo o vaso num sítio com ar a circular. Não uso produtos, não sei dar concentrações nem garantias, e é aqui que paro. Se, depois de ajustar a rega, a planta continuar a piorar, o problema pode já não ser a água, e nessa altura pergunto a quem trabalha nisto todos os dias.
Erros que já cometi
- Regar ao domingo, todas as plantas, sem levantar um único vaso: o fícus-lira ficou com o fundo encharcado e o caule mole.
- Pesar o vaso com o prato cheio por baixo e concluir que ainda estava húmido, quando o que pesava era a água escorrida.
- Aprender o peso num vaso de plástico e aplicá-lo ao de terracota: são pesos diferentes, e reguei a terracota a mais durante um mês.
- Decidir pelo dedo à superfície e regar por cima de um fundo que continuava húmido desde a semana anterior.
- Continuar a regar ao ritmo antigo uma planta que tinha perdido metade das folhas, e acabar com o pé mole.
- Levantar sozinha um vaso grande com terra molhada, de mais de dez quilos, e sentir as costas durante dois dias.