Deixar a água repousar antes de regar
Deixo o regador cheio de um dia para o outro: a água sai à temperatura da casa e não apanho as raízes com água fria da rede.

Tenho por hábito encher o regador à noite e deixá-lo cheio até ao dia seguinte. Começou por preguiça, para não andar com ele pela casa a pingar, e acabou por ficar: a água sai à temperatura da casa em vez de sair gelada da torneira, e as raízes apanham menos choque. Não sei explicar o que se passa dentro do regador durante essas horas e não vou fingir que sei; do que tenho a certeza é do que sinto no pulso quando seguro o regador de manhã, em janeiro, numa casa sem aquecimento a trabalhar de noite. É essa diferença que me faz continuar a deixar a água a repousar antes de a deitar na terra.
O essencial
- Encha o regador depois do jantar e deixe-o cheio até à manhã seguinte; uma noite de repouso chega.
- Ponha o dedo na água antes de regar: se estiver fria de mais para a sua mão, é fria de mais para a raiz.
- Use um regador de bico comprido e com a água à vista; é mais fácil sentir a temperatura do que num jarro tapado.
- Em janeiro, com a casa a 12 a 14 °C de madrugada, a diferença entre a água da torneira e a água da casa nota-se logo no primeiro jato.
- Não guarde a mesma água mais de dois ou três dias, sobretudo no verão, e não a deixe a apanhar sol na varanda.
A água gelada e as raízes
Comecei a deixar a água a repousar sem pensar muito nisso. Num inverno, reguei os vasos da janela a sul com água que tinha acabado de sair da torneira, ao princípio da manhã, e no dia seguinte o pé de uma tradescância estava com um aspeto que eu não gostei: a folha mais nova tinha murchado toda de repente, sem a terra estar seca. Pode ter sido outra coisa qualquer e eu não tenho como provar nada, mas foi a primeira vez que me lembrei de pôr o dedo na água antes de a usar.
O que noto é simples e não preciso de ciência para o dizer: a água da rede, em janeiro, em Coimbra, sai muito mais fria do que o ar da minha casa. Se eu a deitasse na terra às oito da manhã, o vaso ficava com uma temperatura que eu não gostaria de sentir na pele. Deixá-la uma noite dentro de casa é a única maneira que tenho de a aproximar do ambiente onde a planta vive. Não é um método de precisão, é o mesmo bom senso de não dar banho frio a ninguém.
O que faço todas as noites
Depois do jantar, encho o regador na cozinha e ponho-o em cima do balcão, longe da janela. Uso um regador de dois litros, com bico comprido, e encho-o até acima, porque a água que fica a mais serve para o dia seguinte. De manhã, antes de regar, ponho um dedo dentro do regador e sinto. Se estiver à temperatura da casa, está pronta. Se ainda estiver fria, espero mais uma ou duas horas e aproveito para fazer outra coisa.
Não uso termómetro para isto nem meço nada: o dedo é o meu instrumento e sempre foi. O que mudei com o tempo foi o cuidado com o regador em si. No verão, se a água ficar dois dias parada ao calor, começa a cheirar a parado, e nessa altura deito-a fora e encho de novo. No inverno, dois ou três dias não fazem diferença. Também passei a lavar o regador de vez em quando com água quente e nada mais, porque a película que se forma nas paredes, ao fim de meses, acaba por ficar no bico e depois na terra.
O regador, o jarro e o frasco
Nem tudo o que uso para regar é regador. Nas plantas pequenas, que estão em vasos de dez centímetros, uso um frasco de vidro de boca larga, dos de compota, que encho na véspera e deixo na prateleira. O vidro deixa ver a água e não guarda cheiro. Também uso um jarro de barro, que comprei numa feira, e que tem uma vantagem que eu não esperava: como é pesado, obriga-me a enchê-lo devagar e a não o deixar a pingar pela casa toda.
O que não uso é garrafa de plástico fechada com tampa, dessas que ficam a jeito ao lado da janela. Fiz isso durante uns meses e o resultado foi uma película esverdeada no fundo que eu não conseguia ver sem abrir a garrafa, e que depois deitava na terra sem saber bem o que estava a deitar. Onde guardo a água é à sombra, longe do vidro e longe do sol. Deixar um regador cheio a apanhar sol na varanda, em julho, é a maneira mais rápida de a água ficar morna de mais, que é o oposto do que eu quero.
Verão e inverno: a mesma água, temperaturas diferentes
A água em repouso não serve para a mesma coisa nas duas estações. No inverno, o que me interessa é que ela saia à temperatura da casa, porque fora está frio e as raízes não gostam de choques. No verão, com a casa a mais de vinte e cinco graus, a água da torneira até sai fresca e é isso que a planta agradece — mas eu continuo a deixá-la uma hora dentro de casa, para não a apanhar gelada a meio da tarde de julho. Em julho, com o sol a bater de frente no vidro a sul, rego ao princípio da manhã e não ao meio-dia, que é a hora em que a água na terra aquece depressa demais.
Há um caso em que isto me obriga a pensar duas vezes: as semanas de chuva, em Coimbra, entre novembro e fevereiro, quando o ar está tão húmido que a terra seca devagar. Nessa altura quase não rego, e o regador fica cheio dias seguidos no balcão. Como não quero água parada muito tempo, encho-o meio e volto a enchê-lo ao terceiro dia. É um vaivém pequeno, mas faz parte das tarefas da casa, ao lado de tirar o pó das folhas e rodar os vasos um quarto de volta.
O que a água em repouso não resolve, e onde paro
Convém dizer o que isto não faz. Deixar a água uma noite no regador não corrige uma rega a mais, não trata uma terra que ficou compacta como um tijolo e não substitui a escolha de um substrato próprio para vasos de interior. Também não sei se serve para tirar da água alguma coisa que lá venha da rede; ouvi dizer que serve, mas eu não tenho como verificar, e por isso não afirmo nada disso. O que sei é o que sinto no dedo e o que vejo na planta ao fim de uma semana.
Nas plantas de folha com pelo, que não levam água por cima, a água em repouso só é usada no prato, e ainda assim pouca. E se, ao regar, encontrar na página de baixo das folhas uma teia fina, pontos agarrados ou uma película pegajosa, paro de pensar na temperatura da água e passo ao físico: isolo o vaso noutro quarto três semanas, passo as folhas por água corrente uma vez por semana, corto o que estiver muito atacado e deixo o ar circular. Não uso produtos, não sei dar concentrações nem garantias, e é aqui que paro. Se a planta continuar a piorar ao fim de um mês, pergunto a quem trabalha nisto todos os dias.
Erros que já cometi
- Regar com água que acabou de sair da torneira, em janeiro, numa casa a 12 a 14 °C, e notar a folha nova murcha no dia seguinte.
- Guardar a mesma água dentro de uma garrafa fechada até criar uma película esverdeada no fundo e deitá-la assim na terra.
- Deixar o regador cheio a apanhar sol na varanda, em julho, e regar com água morna.
- Regar ao meio-dia de verão, com o sol a bater no vidro, e ficar com a terra a aquecer depressa demais.
- Encher o regador só quando me lembro, à pressa, e voltar a regar com a água fria que era o problema de origem.