Termo-higrómetro de 2020
O aparelho de mesa que me tirou a ilusão de que a casa é igual em toda a parte: 12 a 14 °C junto ao vidro, mais calor no corredor.

Comprei um termo-higrómetro de mesa em 2020, quando andava a tentar perceber porque é que as plantas da janela virada a norte se portavam de maneira diferente das da janela virada a sul. Custou pouco e não é nenhum instrumento de laboratório: mostra a temperatura e a humidade do ar e guarda o valor mais baixo e o mais alto do dia, que é a parte que me interessa. Foi com ele que deixei de acreditar que a minha casa é toda igual. Junto ao vidro marca 12 a 14 °C de madrugada; no corredor, à mesma hora, quase 18 °C.
O que eu queria saber quando o comprei
Comprei-o por causa de uma dúvida concreta. Tinha vasos em duas janelas, uma virada a sul e outra virada a norte, e as plantas da janela a norte pareciam parar durante o inverno, enquanto as da sul continuavam a crescer devagar. Eu olhava para as duas e pareciam-me igualmente claras. Não me parecia que houvesse assim tanta diferença de temperatura dentro da mesma casa.
Havia. Passei um inverno inteiro a olhar para o aparelho uma vez por dia, ao acordar, antes de abrir as janelas, e a anotar num caderno. Junto ao vidro, de madrugada, 12 a 14 °C. A dois metros da janela, quase 15 °C. No corredor, que fica no meio da casa e não tem janela, perto de 18 °C. Não é uma diferença dramática em números, mas é uma diferença que a terra sente: a 12 °C a água da rega quase não evapora, e o que em maio é uma semana passa a ser um mês. Foi isso que me obrigou a abandonar a rega ao domingo.
Uma volta pela casa com o aparelho na mão
Durante duas semanas andei com ele atrás de mim pela casa, o que não é a melhor maneira de o usar — um aparelho de mesa deve ficar quieto num sítio — mas foi a única forma de perceber o mapa. Punha-o no peitoril, esperava, anotava; levava-o para o meio da sala, esperava outra vez. Descobri coisas que não esperava. A prateleira mais alta da estante é sempre um grau ou dois mais quente do que o chão, e é onde tenho agora duas plantas. O canto atrás do sofá, encostado à parede exterior, é o mais frio da casa toda e não tem luz nenhuma; deixei de lá pôr vasos.
A humidade surpreendeu-me mais do que a temperatura. No inverno, com a chuva e a casa fechada, o aparelho anda entre 55% e 70%, e em janeiro chega a marcar 72% de manhã. Em julho, com o calor seco, desce para perto de 40%. Antes de ter isto, andava convencida de que a minha casa era seca e que as plantas precisavam de mais humidade no ar. Os números dizem-me outra coisa, e pouparam-me muito dinheiro em aparelhagens que eu não precisava.
O que mudei depois de ver os números
A primeira mudança foi afastar os vasos do vidro. Em janeiro, o vidro da janela virada a norte fica gelado por dentro, e a folha que lhe toca fica com uma marca castanha que não sai. Afasto dois dedos e resolvi o problema, sem nada de especial.
A segunda foi a rega. Com as leituras de madrugada na mão, deixei de discutir comigo mesma sobre se estava na hora. Se a casa está a 12 ou 13 °C e a terra tem perlita, sei que aquele vaso demora três semanas a secar, e não há dia da semana que aguente essa conta. Em novembro rego menos de metade do que regava em setembro, e não é por a planta estar a descansar em sentido figurado: é porque a água simplesmente não sai da terra àquele frio.
A terceira foi arrumar as plantas por sítio. As que toleram pouca luz ficam na janela a norte, que entre novembro e fevereiro não apanha um raio de sol direto; as que querem sol vão para a sul. E, em julho, recuo as da sul, porque o vidro aquece e queima.
Onde é que eu não confio nele
Não confio em tudo o que ele diz. É um aparelho de mesa barato, comprado em 2020, e nunca o mandei verificar. Mede o ar onde está pousado, não a temperatura da terra nem a da folha, que são coisas diferentes. Duas leituras feitas a meio metro de distância podem diferir, e eu já apanhei surpresas: o número ao lado do vidro não é o mesmo número em cima da estante, e nenhum dos dois é o que a raiz sente.
Também não ando atrás dos números. Uma vez comecei a pulverizar folhas para subir a humidade, vi o valor no aparelho subir durante dez minutos e voltar ao mesmo, e percebi que estava a trabalhar para o visor e não para a planta. Deixei de fazer isso. Para mim, o aparelho serve para responder a uma pergunta só: esta casa tem, em cada canto, uma temperatura que a rega do mês passado já não serve. Tudo o resto é leitura de curiosidade, e a curiosidade não me faz falta nenhuma para tratar dos vasos.
Humidade, inverno, e onde eu paro
A humidade do ar é a parte do aparelho que uso menos. No inverno em Coimbra ela é alta, e o problema da minha casa nunca foi ar seco. As folhas que ficam com bordos secos ficam assim pelo frio do vidro e pela água fria da torneira, não por falta de humidade ambiente. Foi preciso ver os números uma estação inteira para aceitar isto, porque a ideia de que uma casa com aquecimento é seca está muito espalhada e eu tinha-a aceitado sem pensar.
Não sou técnica e não avalio as condições de uma casa para além do canto onde tenho vasos. Não digo se um sítio é bom ou mau para pessoas, não meço nada que tenha a ver com isso e não tenho conhecimentos para tal. Se uma planta minha estiver claramente doente, o visor do aparelho não me diz o que ela tem: diz-me apenas a que temperatura passou a noite. É aqui que paro. Quando a leitura não explica o que estou a ver na folha, o caminho é perguntar a quem trabalha nisto todos os dias, não é comprar mais aparelhos.
O que eu faço, por ordem
- Ponha o aparelho onde vai ficar a maior parte do tempo e deixe-o lá, em vez de o andar a levar de um lado para o outro.
- Anote a leitura da manhã, antes de abrir as janelas, durante uma semana seguida.
- Leve-o depois aos sítios onde tem vasos e compare: junto ao vidro, meio da sala, corredor.
- Registe também o valor mais baixo do dia; é esse que decide se o canto serve para uma planta de folha fina.
- Repita a volta em julho, porque a casa de janeiro não é a mesma casa de julho.
- Use o que viu para afastar os vasos do vidro e para ajustar a rega, não para perseguir números.