Regar menos quando a casa arrefece

Entre novembro e março conto as regas pelos dedos de uma mão. Com 12 a 14 °C de noite, a terra simplesmente não seca ao mesmo ritmo.

Regar menos quando a casa arrefece
O regador de bico comprido a descansar na cozinha desde a noite anterior, com a água à temperatura da casa.

Entre Novembro e Março conto as regas pelos dedos de uma mão. Numa semana normal de Inverno não rego mais do que três ou quatro vasos, quando no Verão os rego todos. Não é economia de água nem disciplina: com 12 a 14 °C de noite, a terra não seca ao mesmo ritmo e a planta também não gasta. O que era água a mais em Julho passa a ser água a mais durante duas semanas seguidas em Janeiro, e é aí que os fundos apodrecem sem eu dar por isso.

O essencial

  • Entre Novembro e Março conto as regas pelos dedos de uma mão: três ou quatro vasos por semana, não a casa toda.
  • Com 12 a 14 °C de noite e pouca luz, a terra seca muito mais devagar, e o calendário do Verão não serve.
  • Levantar o vaso continua a ser o que decide, mas no Inverno a espera entre regas é o dobro do que era em Outubro.
  • Rego de manhã, com água que dormiu dentro de casa, e nunca com água fria da torneira ao fim da tarde.
  • As plantas que descansam quase não bebem, e o espatifilo a murchar às cinco da tarde não é falta de água.

Novembro, quando a casa arrefece

A passagem de Outubro para Novembro é a altura em que eu estrago mais plantas, e não é por descuido. Chego do Verão com uma rotina: os vasos da janela virada a sul a secarem em dois dias, o regador sempre cheio, uma volta pela casa duas vezes por semana. Em Outubro a luz ainda é boa e parece que nada mudou. Em Novembro a casa arrefece, a luz que entra pela janela virada a norte passa a ser luz de céu e não sol, e as plantas param. Eu continuo a regar ao ritmo de Setembro durante duas ou três semanas, e é o suficiente para estragar o fundo de um vaso.

Aprendi a marcar esta passagem a sério, no calendário da cozinha. Escrevo «abrandar» na primeira semana de Novembro e passo a olhar para os vasos antes de abrir o regador. Não tenho um método mais fino do que este, e não me faz falta: a casa arrefece, a planta para, e quem tem de abrandar sou eu.

O dedo, a mão e a conta

No Inverno conto as regas pelos dedos de uma mão. Numa semana de Janeiro rego três ou quatro vasos, e há semanas em que rego dois. Não são os vasos escolhidos por ordem nem por gosto: são aqueles em que levantei o peso e a terra secou. Os vasos que ficam na janela virada a sul, que ainda apanham alguma luz, secam primeiro; os do corredor e os da janela virada a norte podem passar dez dias sem nada, e passam.

A conta é o que me impede de regar por hábito. Se em Julho uma planta bebe a cada três dias, em Janeiro bebe a cada oito ou dez, e o caso da zamioculca é a cada três semanas. Não divido por dois nem aplico nenhuma regra de proporção; olho para cada vaso e decido. O que me ajudou foi aceitar que a resposta certa em Janeiro é quase sempre não regar hoje. Um dia a mais de seco faz pouco; uma semana a mais de molhado estraga o fundo, e ao fim de cinco anos de vasos foi sempre isto que me deu trabalho.

Água que dormiu e a hora do dia

Uso água que dormiu dentro de casa. Encho o regador de bico comprido à noite e deixo-o na cozinha até ao dia seguinte; de manhã a água está à temperatura da casa e não dá aquele choque frio na terra. Em Coimbra, a água da torneira em Janeiro sai bastante fria, e não faz sentido despejar isso num vaso que está a 14 °C. Encher o regador na noite anterior é o hábito mais antigo que tenho, e é dos poucos de que nunca me arrependi.

A hora do dia também conta. Rego de manhã, depois do pequeno-almoço, quando a casa já recebeu alguma luz e a folha tem o dia todo para secar. Ao fim da tarde não rego: água parada entre a folha e o caule durante a noite, com a casa fria e sem ar a circular, é coisa que quero evitar. Se me esquecer e só me lembrar à noite, deixo para a manhã seguinte; a menos que o vaso esteja mesmo muito leve, e nesse caso rego pouco, molho só a superfície e volto ao resto no dia seguinte.

As duas plantas que me enganam

Há duas plantas que no Inverno me enganam sempre. A primeira é o espatifilo, que ao fim da tarde cai de lado com as folhas moles, como se estivesse a pedir água, e se recompõe sozinho durante a noite. Em Novembro cheguei a regá-lo três vezes numa semana por causa disso, e a terra ficou um bloco. Hoje, quando o vejo murchar às cinco da tarde, espero até à manhã seguinte: se ao acordar estiver firme, não faço nada e sigo para o trabalho descansada.

A segunda é a zamioculca, que passa o Inverno quase sem água e não dá sinal nenhum. Já me esqueci dela de propósito e foi ela que se portou melhor. O que faço com a zamioculca é quase nada: levanto o vaso uma vez por semana, e se estiver pesado deixo-a em paz. No Inverno passado reguei-a três vezes entre Novembro e Março, e foi suficiente. Ela não me agradece com folhas novas até Abril, e isso é normal nesta casa fria.

Onde paro

Não uso aparelhos para decidir a rega. O termo-higrómetro de 2020 diz-me a temperatura e a humidade do ar, o que me ajuda a perceber por que razão a terra está a secar devagar, mas não me diz quando regar. Não tenho sensor enfiado na terra, não tenho rega automática e não quero ter: em Inverno, uma rega automática a cair todos os dias num vaso que não seca é precisamente o problema que eu passo a vida a evitar.

Se, ao levantar um vaso em Janeiro, sentir a terra pesada e cheirar a parado, tiro-o do prato, ponho-o num sítio com ar e não rego nada até a superfície ceder. Se o pé do caule estiver mole, o caso já não é de rega: tiro a planta do vaso, olho para as raízes e, se o que está lá dentro se desfaz, é aqui que paro e procuro quem trabalha nisto todos os dias. Não tento salvar raízes apodrecidas com mais água nem com menos água às cegas. Em cinco anos, a única coisa que me resultou foi perceber isto cedo.

Erros que já cometi

  • Continuar a regar ao ritmo de Setembro nas duas primeiras semanas de Novembro, e estragar o fundo de um vaso que ainda estava bem.
  • Regar o espatifilo três vezes numa semana porque ele cai de lado às cinco da tarde, e acabar com a terra num bloco.
  • Despejar água fria da torneira directamente no vaso, de manhã, com a casa a 13 °C.
  • Regar ao fim da tarde e deixar água entre a folha e o caule toda a noite, com a casa fria e sem ar a circular.
  • Regar a zamioculca ao ritmo das outras plantas, só por estar na mesma prateleira, e vê-la parada durante meses.
  • Mexer na rega de uma planta que só estava a descansar no Inverno, à procura de uma causa que não existia.