Espatifilo

O espatifilo que murcha de forma teatral ao fim da tarde e se recompõe sozinho durante a noite: aprendi a desconfiar antes de ir ao regador.

Espatifilo
O espatifilo na janela virada a norte, com a espata branca aberta no início da primavera.

O meu espatifilo faz uma coisa que assustou visitas e me enganou durante meses: ao fim da tarde, depois de um dia de luz, as folhas caem todas para os lados, moles, como se estivesse a morrer. Na manhã seguinte está firme outra vez, sem eu lhe ter tocado. A primeira vez reguei-o com sofreguidão, e a segunda também, até perceber que não era sede, era fim de tarde. Aprendi a desconfiar do regador antes de o encher, e foi a melhor coisa que fiz por esta planta.

RegaTerra levemente húmida, sem encharcar; em janeiro, a cada dez ou doze dias
LuzLuz abundante e indireta; a janela a norte serve-lhe bem, a sul só com cortinado fino
TamanhoNum vaso de 18 cm, fica com uns 40 cm de altura de folhagem
FloraçãoCostuma abrir no início da primavera, com a espata branca a durar três a quatro semanas

A murcha das cinco da tarde

Explico a murcha como quem já a viu muitas vezes. Ao longo do dia as folhas transpiram água e, se a terra não tem humidade suficiente para repor o que sai, ficam moles e caem. Ao fim da tarde, com a luz a baixar, a planta reduz a transpiração e volta a levantar durante a noite. É um equilíbrio diário, não um drama. Percebi isto quando reparei que a murcha era igual todos os dias à mesma hora e que de manhã já tinha passado.

O problema é que esta mesma murcha aparece quando a terra seca de vez, e aí é mesmo sede. A diferença está no ritmo: uma murcha que se repete à tarde e se resolve à noite é do próprio funcionamento da planta; uma murcha que continua de manhã e vem com a terra solta até ao fundo é falta de água. Foi por isso que comecei a testar a terra de manhã e não ao fim do dia, quando tudo me parece urgente. Regar em cima da murcha da tarde é a forma mais rápida de encharcar a planta sem necessidade.

Húmido, mas nunca encharcado

O espatifilo não é uma planta de secar por completo entre regas, como o fícus. Gosta de terra levemente húmida, mas húmida, não empapada. Aprendi a diferença com a mão: se a terra cola aos dedos em pasta, espero; se está fresca mas solta, rego. Em janeiro, com a casa a 12 a 14 °C de madrugada, estico o intervalo para dez ou doze dias. Em julho volto a regar a cada cinco ou seis, seguindo o peso do vaso.

Deixo o regador cheio de um dia para o outro, para a água não sair fria da rede. Rego à volta do vaso, sem acertar no centro das folhas, e escorro sempre. Esta é a planta que me obriga a esvaziar o prato vinte minutos depois; deixar água no fundo dá-lhe raízes moles em duas semanas. Uso um substrato com perlita desde que comecei a misturá-la, e o tempo de secagem ficou mais previsível: nem encharca num dia, nem seca de repente no outro.

Uma planta da janela a norte

O espatifilo é das poucas plantas minhas que ficam bem na janela virada a norte. Em Coimbra, ali entre novembro e fevereiro não entra um raio de sol direto: é luz de céu, cinzenta e pouca. Como cresce debaixo de árvores na natureza, tolera esta luz melhor do que a monstera ou uma suculenta, e, ao contrário delas, não estiola. Dá flores na primavera, quando a luz sobe, e a folhagem mantém-se verde durante todo o inverno, mesmo nos dias mais fechados.

Na janela a sul também daria, mas com o cortinado fino no verão, senão o sol direto queima as folhas. Já experimentei e as pontas ficaram com manchas pálidas que nunca mais desapareceram de todo. Ficou onde está: a norte, num vaso de plástico com furo, que é o que guarda melhor a humidade daquele lado da casa. Rodo o vaso um quarto de volta cada vez que limpo as folhas, para não crescer toda inclinada para o vidro.

Folhas com pontas castanhas: o que leio nelas

Uma ponta castanha e seca é o sinal mais frequente no meu espatifilo, e nem sempre quer dizer a mesma coisa. Pode ser ar seco, pode ser água fria, pode ser excesso de adubo, pode ser simplesmente uma folha velha a acabar. O que faço é olhar para o conjunto: se forem uma ou duas pontas nas folhas de baixo, corto com a tesoura seguindo a forma da folha e não penso mais nisso. Se for em muitas folhas ao mesmo tempo, procuro a causa antes de mexer na rega.

A causa mais provável na minha casa é o ar seco, porque no inverno, quando ligo o aquecimento no quarto onde ele está, o termo-higrómetro de 2020 mostra a humidade a descer. Não ando com vaporizadores nem pratos com pedras. Afasto o vaso da fonte de calor, rego com água que repousou e mantenho a terra um pouco mais fresca, sem a encharcar. É pouco e é o que tenho, e tem chegado para o espatifilo passar o inverno com a folhagem em condições.

Bichos, lavagem e onde eu paro

Os espatífilos têm folhas densas junto à base, e é aí que se escondem as coisas. Já encontrei uns pontos escuros nas páginas de baixo e, noutra altura, uma teia fina entre as hastes. O que faço é sempre o mesmo e é físico: separo a planta das outras durante três semanas, passo as folhas por água corrente, por cima e por baixo, com os dedos a percorrer cada folha; corto as folhas muito atacadas; e ponho o vaso num sítio com ar a circular, sem o encostar a uma parede. Repito a lavagem uma vez por semana, e é tudo o que faço.

Não uso produtos fitofarmacêuticos, não sei dar concentrações nem intervalos, e é aqui que paro. Se ao fim de um mês a planta continuar a perder folhas, o que faço é pedir a opinião de quem trabalha nisto todos os dias. Com uma planta que já me deu flores duas primaveras, não vale a pena andar a experimentar remédios que não sei medir nem aplicar com segurança.

O que eu faço, por ordem

  1. Teste a terra com o dedo de manhã, não ao fim do dia, quando a murcha assusta mais.
  2. Regue devagar, à volta do vaso e sem acertar no centro das folhas.
  3. Deixe o regador cheio de um dia para o outro, para a água sair à temperatura da casa.
  4. Esvazie o prato vinte minutos depois de regar; esta planta não perdoa a água presa.
  5. Em janeiro, estique a rega para dez ou doze dias e afaste o vaso da fonte de calor.
  6. Corte as pontas castanhas seguindo a forma da folha, sem deixar bordos com farpas.
  7. Rode o vaso um quarto de volta sempre que limpar o pó das folhas.
  8. Com bichos, isole, lave por água corrente e melhore a ventilação; aqui paro eu.