Hera-comum

A hera que trouxe da rua num corte e que passou três semanas isolada noutro quarto antes de se juntar ao resto dos vasos.

Hera-comum
A hera-comum na parede da sala, a subir por um arame junto à janela pequena.

A hera que tenho em casa começou como uma estaca que tirei de um muro na rua, num dia de fevereiro, a caminho do trabalho. Trouxe-a dentro de um saco de pão, com três folhas e dois nós. Antes de a juntar aos vasos que já tinha, deixei-a três semanas isolada num quarto onde não entrava mais nada, a ver o que aparecia. Não apareceu nada, mas foi nessas três semanas que aprendi a olhar para o lado de baixo das folhas, que é onde as coisas se escondem.

IsolamentoTrês semanas noutra divisão, a 2 ou 3 metros de qualquer outro vaso, antes de juntar
Luz em casaVive bem com luz de céu; na janela a norte cresce mais devagar e fica verde-escura
Rega no invernoTerra a secar na superfície antes de regar; em janeiro pode passar dez a doze dias
RevisãoFolha a folha, pelo lado de baixo e junto aos nós, uma vez por semana durante a quarentena

A estaca que veio da rua

Tirei a estaca com a unha, de uma hera que crescia sobre um muro, num sítio onde ela já estava há anos e onde ninguém a regava. Cortar uma planta de rua não é o mesmo que comprar uma planta numa loja. Traz de lá tudo o que vivia com ela: pó da estrada, terra do muro, e às vezes bichos que eu não vejo à primeira. Não penso nisso como um perigo, penso como uma mudança de casa: qualquer coisa que venha de fora tem de passar por um período em que eu a observo antes de estar ao lado das minhas.

A estaca foi para um copo com água da torneira que ficou a repousar de um dia para o outro, para o cloro sair, e ali ficou até formar raiz. Nesse tempo já estava separada. Quando a passei para terra, num vaso pequeno de 12 cm com perlita na mistura, continuou na mesma divisão isolada. A regra que sigo é não juntar nada novo ao resto antes de três semanas bem contadas. É tempo suficiente para ver se aparece alguma coisa, e não tanto que a planta se ressinta.

Três semanas noutro quarto

O quarto onde faço a quarentena não é um lugar especial. É o quarto de arrumar, com uma janela pequena virada a norte, onde quase não entra sol. A distância importa: ponho o vaso novo a uns metros dos outros, não na mesma janela nem na mesma mesa, porque muitos bichos que atacam plantas passam de um vaso a outro sem se ver, e alguns até saltam ou voam distâncias curtas. Se tudo estiver encostado, de nada serve o isolamento.

Nestas três semanas, olho para a planta uma vez por semana, e faço-o sempre da mesma maneira: pego em cada folha, viro-a e vejo o lado de baixo, junto à nervura central e ao pé do talo. É ali que aparecem os primeiros sinais, mais cedo do que em cima. Também passo o dedo na terra e olho pela borda do vaso, porque há bichos que vivem mais no substrato do que nas folhas. Nada disto é trabalho técnico, é só paciência e hábito. No fim das três semanas, se estiver tudo limpo, a hera junta-se às outras.

O que olho por baixo das folhas

Com a prática, comecei a distinguir três coisas que já vi nas minhas plantas, todas elas mais comuns em quem, como eu, junta plantas de sítios diferentes. Uma é uma poeira branca e fina que se move pouco e deixa umas teias raras entre os talos, sobretudo com o ar seco do inverno. Outra são uns pontos castanhos ou acinzentados, pequenos e duros, presos à folha como se fossem sementes. A terceira são uns bichinhos verdes ou pretos, juntos, no talo novo e tenro, que é a parte mais tenra da planta.

Não sei dar nomes certos a todos, e prefiro não inventar. O que sei é onde procurar e o que fazer a seguir. Todos eles gostam de folhas paradas, sem ar a circular, e gostam de plantas que estão a receber água a mais. Foi por isso que passei a arejar mais o quarto e a olhar para a terra, e não só para as folhas, quando encontro alguma coisa.

Lavar, cortar e separar: o que faço

Quando encontro alguma coisa na hera, o que faço é sempre a mesma sequência, e nenhum passo é um produto. Levo o vaso para a varanda, longe dos outros. Com a mão ou com uma pinça, tiro os bichos que consigo ver e esmago-os num papel. As folhas com pontos duros ou muito atacadas corto-as e ponho-as no lixo comum, nunca no chão da varanda nem na terra. Depois lavo o resto da folhagem com água, com a planta inclinada, deixando correr água pela folha toda, de cima para baixo, pelo lado de cima e pelo lado de baixo.

A hera é boa para isto porque tem folhas firmes, que aguentam água sem se estragarem. Deixo-a a escorrer na varanda, à sombra, e não a levo para dentro até estar bem seca. Durante as semanas seguintes, mantenho o vaso separado e volto a olhar folha a folha a cada poucos dias. Também largo a rega um pouco, porque muitas destas visitas aparecem mais em terra que fica húmida demasiado tempo. Arejar, limpar e esperar: é o que tenho.

Quando a hera volta para junto das outras

Só volto a juntar a hera aos outros vasos quando passam duas semanas seguidas sem eu ver nada novo, e isso depois de ter feito a limpeza. No caso desta planta, a estaca da rua nunca me deu problemas e ao fim de um mês estava atrás do móvel da sala, a subir por um arame que pus na parede. Hoje é uma das plantas que mais cresce em casa, e corto-a duas vezes por ano para não me invadir a janela.

Aprendi também o que não vale a pena: cortar só as folhas de cima, deixar o vaso encostado aos outros enquanto trato dele e regar mais como se a planta estivesse com sede. Já fiz as três coisas e o resultado foi sempre o mesmo, voltar a ver o problema ao fim de uma semana. Hoje prefiro perder três semanas de convivência a ter de andar atrás disto em oito vasos ao mesmo tempo.

O que eu faço, por ordem

  1. Tire a estaca e ponha-a logo separada, longe de qualquer outro vaso.
  2. Deixe a água de rega a repousar de um dia para o outro antes de a usar.
  3. Durante três semanas, olhe folha a folha pelo lado de baixo, junto à nervura e ao talo.
  4. Olhe também para a borda do vaso e para a superfície da terra, não só para as folhas.
  5. Se encontrar bichos, leve o vaso para a varanda e retire-os à mão com um papel.
  6. Corte as folhas mais atacadas e deite-as no lixo comum, não na terra nem no chão.
  7. Lave a folhagem com água, dos dois lados, e deixe escorrer à sombra até secar.
  8. Só junte a planta às outras depois de duas semanas seguidas sem ver nada novo.