Enraizar uma estaca em água

Corte abaixo do nó, frasco de vidro, duas semanas à espera. A pressa de passar ao vaso antes de as raízes existirem é o erro clássico.

Enraizar uma estaca em água
A estaca de dois nós dentro do frasco de vidro, com o corte dois dedos abaixo do nível da água.

Corto sempre abaixo de um nó, com uma tesoura lavada, e ponho a estaca num frasco de vidro com água até dois dedos acima do corte. Depois espero. Duas semanas é o tempo que costumo contar para uma raiz começar a aparecer, e há estacas que levam três. A pressa de passar a estaca ao vaso antes de as raízes existirem é o erro clássico, e foi o que me fez perder mais estacas do que qualquer outra coisa. Nada disto é complicado; o difícil é a espera.

O essencial

  • Corte abaixo de um nó, com dois ou três nós na estaca, e a folha desse nó tirada para ele ficar livre.
  • Frasco de vidro, água da torneira em repouso, dois dedos de água acima do corte e troca de água duas vezes por semana.
  • Luz clara mas sem sol directo a bater no vidro, longe do radiador e longe do vidro frio da janela.
  • Duas semanas é o mínimo que conto; há estacas que só mostram raiz aos vinte dias, e isso não quer dizer que estejam perdidas.
  • Só passo ao substrato quando a raiz maior tem dois centímetros; antes disso, o que ganho é uma estaca mole.

O corte e o nó

Aprendi o corte com o pothos, que foi a primeira planta que consegui multiplicar, e depois apliquei-o à tradescância e à hera. É sempre a mesma ideia: o corte vai abaixo de um nó, porque é no nó que está a raiz à espera. Se cortar a meio do espaço entre dois nós, a estaca fica com um pedaço de caule morto na ponta, que primeiro apodrece e só depois, às vezes, dá raiz. Deixo sempre dois ou três nós na estaca e tiro a folha do nó que vai ficar dentro de água, porque uma folha submersa apodrece e estraga a água toda em dois dias.

A tesoura é a da cozinha, lavada e seca, e corto de uma vez, num golpe só, sem esmagar o caule. Passo o dedo pelo corte para sentir se ficou liso. Se a planta mãe me interessa, tenho o cuidado de não cortar o caule principal: tiro a estaca de um ramo lateral e deixo sempre duas ou três folhas no ramo que fica. Nas plantas de caule mole, faço o corte de manhã, quando a planta ainda tem mais água dentro.

O frasco de vidro e a água

O frasco é de vidro, e é de vidro por uma razão prática: vejo as raízes sem mexer em nada. Já usei um copo de plástico opaco e só descobri que a estaca tinha raiz quando a mudei de sítio e ela caiu de lado. Uso frascos de compota, dos pequenos, bem lavados, e num deles fiz uma marca a lápis a dois dedos do fundo, que é o nível que quero. A água é da torneira, deixada a repousar de um dia para o outro no próprio frasco. Não encho até cima: dois dedos acima do corte chegam, e o resto do caule fica ao ar.

Troco a água duas vezes por semana, às quartas e aos domingos, e aproveito para cheirar o fundo do frasco. Se cheirar mal, corto mais um centímetro ao caule, lavo o frasco e começo outra vez. O frasco fica na prateleira da sala, com luz, mas sem sol a bater no vidro: em Julho, com a janela virada a sul que tenho na sala, um frasco ao sol aquece como um pequeno forno e a estaca coze em duas horas.

A espera de duas semanas

A espera é a parte de que ninguém gosta. Eu conto duas semanas, e ao fim desse tempo espreito o frasco todos os dias contra a luz, à procura de uma pontinha branca. Nas estacas de pothos, a raiz aparece-me às vezes ao oitavo dia; nas de tradescância, ao décimo; nas de hera, já passei dos vinte. Entre Janeiro e Fevereiro, com a casa a 12 ou 13 °C de madrugada e o termo-higrómetro de 2020 a marcar isso mesmo na prateleira, tudo abranda, e há estacas que passam três semanas sem mostrar nada e depois arrancam de repente.

Durante a espera mudo a água e não mexo na estaca. É difícil resistir: apetece levantar o caule para ver por baixo, apetece mudar de sítio, apetece pôr ao sol porque deve precisar. Cada vez que levanto a estaca, a raiz fina que estava a pegar-se às paredes do frasco solta-se. Aprendi a olhar de fora e a deixar as coisas quietas. A estaca que se aguenta duas semanas sem ser mexida é a que me dá menos trabalho depois.

As estacas que correm mal

As estacas que correm mal dão sinais antes de morrer, e hoje reconheço-os. O caule fica translúcido e mole no sítio do corte, a água turva-se em dois dias e cheira a parado, e a folha que deixei em cima começa a ficar amarela pela ponta, apesar de eu estar a mudar a água. Quando vejo isto, não insisto: corto a parte mole com a tesoura, até encontrar caule firme e verde, lavo o frasco com água quente, ponho água nova e começo outra vez. Se descer abaixo de dois nós úteis, deito a estaca fora, porque uma estaca sem nó não dá raiz.

A pressa é o que estraga mais. Já pus estacas no substrato com uma única raiz de meio centímetro, convencida de que estava a fazer o melhor, e ao terceiro dia de terra a raiz não aguentou e a estaca murchou. Também já pus estacas em água com a folha de baixo dentro do frasco, e o resultado foi água podre e caule escuro ao quarto dia. Aprendi a tirar a folha certa antes, que é um gesto de dez segundos e que me poupa uma semana.

Onde paro

Não uso produtos para enraizar, não sei doses e não sei o que aquilo faz à água. Água da torneira em repouso e um frasco lavado são tudo o que tenho nesta prateleira. Se a estaca tiver uma folha que apodrece, tiro-a; se o caule ficar mole, corto; e se a coisa não passar disso, deito fora. Não faço cultura em gel, não compro nada com nome de marca e não ando a inventar misturas.

Há também coisas que não tento. Não enraio estacas de plantas que precisam de calor para pegar, como a monstera, porque em casa, em Janeiro, isso não me corre bem; e não corto a planta toda para fazer dez estacas de uma vez, porque se correr mal fico sem a planta mãe e sem nada. Se a estaca ficar mole depois de a passar ao substrato, ou se ficar três semanas em água sem mostrar nada e a água começar a turvar-se todos os dias, é aqui que paro e procuro quem trabalha nisto todos os dias, em vez de repetir a mesma tentativa sem perceber o que falhou.

Erros que já cometi

  • Cortar a meio do espaço entre dois nós, em vez de abaixo do nó, e ficar com uma ponta de caule a apodrecer dentro da água.
  • Deixar a folha do nó de baixo dentro do frasco e, em quatro dias, ter água podre e caule escuro.
  • Levantar a estaca do frasco todos os dias para ver se já tinha raiz, e soltar a raiz que estava a pegar-se ao vidro.
  • Passar a estaca ao substrato com uma única raiz de meio centímetro e vê-la murchar em três dias.
  • Pôr o frasco no vidro da janela virada a sul, em Julho, e cozer a estaca no mesmo dia.
  • Fazer dez estacas de uma vez a partir de uma planta pequena e ficar sem planta mãe e sem estacas.