Tradescância

A tradescância que enraíza tão depressa num frasco que já a uso como indicador: se ela estiola, aquele canto tem pouca luz.

Tradescância
Frasco de vidro com estacas de tradescância na bancada da cozinha, com as primeiras raízes brancas nos nós.

Tenho uma tradescância num frasco de vidro em cima do frigorífico e já perdi a conta às vezes que a cortei. É a planta que me mostra se um canto tem luz que chegue: quando a ponho na janela virada a norte, entre novembro e fevereiro, começa a esticar-se, as folhas saem mais pequenas e a cor perde força em duas ou três semanas. No mesmo sítio, em maio, dá rebentos por todo o lado. Uso-a por isso mesmo, como planta e como indicador barato do que se passa naquele canto da casa.

EstacaDois a três nós, uns 8 a 12 cm de caule; cortada abaixo de um nó, enraíza quase sempre
Tempo até à raizCinco a dez dias em maio e junho; três semanas ou mais entre dezembro e fevereiro
Água do frascoTrocada duas vezes por semana, sem cloro, em água que repousou de um dia para o outro
Luz do cantoLuz de céu a um ou dois metros do vidro; o sol direto de julho queima as folhas novas

A planta que me diz se o canto tem luz

A tradescância entrou em casa por acidente, num corte que trouxe de casa de uma colega dentro de um saco de plástico. Não sabia o nome, não sabia se pegava. Meti-a num frasco com água e, ao fim de seis dias, havia raízes brancas a sair dos nós. Foi a primeira planta que me mostrou que enraizar não é nenhum mistério: é um nó debaixo de água e paciência.

De lá para cá passei a usá-la de outra maneira. Como cresce depressa e também falha depressa, ponho um frasco dela nos sítios onde estou a pensar meter plantas mais caras. Se a tradescância se aguenta e mantém a cor, o canto tem luz de céu suficiente. Se estica o caule, deixa cair as folhas de baixo e sai mais pálida, já sei o que me espera ali e não vale a pena insistir com uma monstera ou um fícus. É um indicador rude, mas poupou-me mais do que uma compra mal feita.

Cortar e enraizar num frasco

Corto sempre abaixo de um nó, com uma tesoura velha que guardo só para as plantas. Uma estaca de dez centímetros, com dois ou três nós, é o que uso. Tiro a folha que ficaria dentro de água — folha submersa apodrece em dois dias e estraga o frasco todo — e deixo duas ou três no topo. Ponho os nós mergulhados e as folhas de fora, num frasco de vidro transparente, para poder ver o que se passa sem mexer.

Uso água da torneira que ficou a repousar de um dia para o outro, para não sair fria da rede. Em maio e junho, as raízes aparecem em cinco a dez dias. Entre dezembro e fevereiro, com a casa a 12 a 14 °C de madrugada, já esperei três semanas pela primeira raiz. Troco a água duas vezes por semana, mais no verão, e passo as estacas para um frasco lavado quando noto que a água enturvou. Não ponho nada dentro da água: nem terra, nem açúcar, nem moedas, nada dessas receitas que se leem por aí.

Quando estica e perde a cor

Há duas tradescâncias em casa e a diferença entre elas é a luz. A que está na janela virada a sul, a uns dois metros do vidro, tem caules curtos, folhas juntas e a cor marcada. A que ficou na janela virada a norte passou o inverno a esticar: entre novembro e fevereiro aquela janela não apanha um raio de sol direto, e a planta respondeu à sua maneira, com entrenós compridos e folhas pequenas e pálidas.

Aprendi a reconhecer isto sem aparelhos. Quando os nós do caule ficam separados por mais de dois dedos e as folhas novas saem menores do que as de baixo, é falta de luz. Quando ficam moles e translúcidas, é água a mais no vaso. São coisas diferentes que se parecem de longe. Uma vez confundi as duas, reguei uma planta de folhas moles por achar que tinha sede, e perdi metade dos caules. Hoje olho para o caule antes de pegar no regador.

Renovar o vaso com as próprias pontas

A tradescância fica feia de baixo para cima. As folhas velhas caem, o caule fica comprido e sem folha, e a planta acaba por parecer um conjunto de fios num vaso. Não tento salvar o caule velho. Faço ao contrário: corto as pontas com os melhores dois ou três nós, deixo as estacas a enraizar em água durante uma semana, e volto a plantá-las no mesmo vaso, junto à base que já lá está. Fica um vaso renovado todos os anos, sem gastar um cêntimo.

Quando planto, uso um vaso de 12 cm com furo, terra própria para vasos de interior e uma mão-cheia de perlita, porque a tradescância com terra pesada apodrece depressa. Molho a terra antes de meter as estacas, ponho quatro ou cinco de uma só vez e aperto com os dedos só o suficiente para ficarem de pé. Rego uma vez, deixo escorrer na varanda e esvazio o prato vinte minutos depois. Fica à luz de céu durante a primeira semana, sem sol direto, porque as raízes nascidas em água são moles e queimam com o sol de julho.

Bichos, e onde eu paro

Uma vez vi uns pontos esbranquiçados na página de baixo das folhas, junto à nervura. Não sei dizer ao certo o que eram e não vou inventar um nome. O que fiz foi físico: isolei o vaso noutro quarto, durante três semanas, longe dos outros; passei as folhas por água corrente, por cima e por baixo, com os dedos a correr cada página, uma vez por semana; cortei os caules mais atingidos e deitei-os fora no lixo fechado, não na terra de outro vaso; e deixei a planta num sítio com ar a circular, sem encostar a paredes.

Não uso produtos, não sei dar concentrações nem garantias, e é aqui que paro. Se ao fim de um mês a planta continuar a piorar, o caminho não é inventar misturas: é perguntar a quem percebe. Quando me apetece mexer mais, lembro-me de que a tradescância perde folhas ao mínimo toque e que uma planta isolada estraga menos do que uma casa inteira a apanhar a mesma coisa. Depois lavo as mãos e não a ponho perto das outras até ter a certeza.

O que eu faço, por ordem

  1. Corte as estacas abaixo de um nó, com dois ou três nós por estaca e uns 8 a 12 cm de caule.
  2. Tire a folha que ficaria dentro de água e deixe duas ou três no topo da estaca.
  3. Ponha as estacas num frasco de vidro, com os nós mergulhados e as folhas de fora.
  4. Use água que repousou de um dia para o outro e troque-a duas vezes por semana.
  5. Espere cinco a dez dias no verão e até três semanas no inverno pela primeira raiz.
  6. Quando as raízes tiverem dois ou três centímetros, plante quatro ou cinco num vaso de 12 cm com perlita.
  7. Regue uma vez, esvazie o prato e mantenha o vaso à luz de céu durante a primeira semana.