Fícus-lira
A planta que reguei ao domingo durante dois meses e que acabou com as raízes moles; foi o erro que me mudou a maneira de regar tudo o resto.

O fícus-lira foi a planta que me ensinou a regar, e ensinou-me da pior maneira. Reguei-o ao domingo durante dois meses, sempre à mesma hora, sem levantar o vaso nem espreitar a terra. Ao fim desse tempo começou a perder folhas, primeiro uma ou duas, depois punhados inteiros. Quando o tirei do vaso, as raízes estavam moles, escuras e com cheiro a húmido. Perdi metade das folhas e quase a planta. Hoje, quando me perguntam por que razão levanto os vasos antes de regar, é este fícus que eu respondo.
Como afoguei o fícus, ao domingo
Comprei o fícus-lira com quase um metro, numa manhã de sábado, e levei-o para casa convencida de que era uma planta resistente. Era, até eu começar a regá-la ao domingo. Todas as semanas, uma medida certa de água, fizesse calor ou estivesse a chover há quinze dias. Nunca mexi na terra, nunca levantei o vaso. Achava que a rotina era exatamente o que a planta queria, e que mudar de ideias só a ia destabilizar.
Ao segundo mês as folhas de baixo começaram a amarelar e a cair. Primeiro duas ou três por semana, depois um punhado de cada vez. Assustei-me e reguei ainda mais, porque pensei que fosse falta de água. Era o contrário. Quando tirei a planta do vaso, as raízes estavam moles, escuras, e a terra cheirava a húmido por dentro. Cortei tudo o que estava mole, deixei secar ao ar, voltei a envasar em substrato novo com perlita e esperei pela metade que sobrava. Sobreviveu, e a lição ficou paga com meia planta.
O peso do vaso como único calendário
Hoje não tenho dias fixos para regar. Tenho um teste: levanto o vaso pelo fundo, com as duas mãos, e sinto o peso. Aprendi a diferença em duas ou três semanas e, desde então, o pulso diz-me mais do que qualquer calendário. Um vaso bem regado pesa; um vaso seco é leve, e às vezes inclino-o e sinto a terra a mexer-se lá dentro.
Uso também o dedo. Enterro-o até à segunda falange, ao lado do caule, e vejo se sai com terra agarrada. Se sair seca e solta, está na hora. Se sair húmida e fria, espero dois dias e volto a testar. O fícus, em particular, deixa-se secar entre regas: é preferível ficar dois dias a mais do que um dia a menos. Regar a mais não tem correção, porque a raiz que apodrece não volta atrás. Foi esta a diferença que me custou uma planta grande para aprender.
Água em repouso e o prato vazio
Encho o regador de um dia para o outro. Não é superstição: a água sai à temperatura da casa em vez de vir fria da rede, e isso nota-se nas plantas de folha grande. Já reguei o fícus com água fria em pleno janeiro e as folhas de baixo ficaram com manchas escuras durante semanas. Não é uma regra que inventei por gosto, é o que a casa me mostrou com esta planta à frente.
Quando rego, faço-o devagar, à volta do caule e nunca encostado a ele, até ver a água a sair pelos furos. Depois deixo o vaso escorrer no lava-loiça e deito fora a água que ficou no prato, vinte minutos depois. O prato com água por baixo é a razão número um das raízes moles, e foi assim que o meu primeiro fícus se perdeu. Não é por acaso que tenho um cuidado inteiro só para esvaziar o prato no fim da rega.
Folhas amarelas: sede ou excesso
Não é fácil de ler, e durante muito tempo baralhei as duas coisas. Uma folha amarela pode ser falta de água ou excesso, e o que muda é onde aparece e como está o resto da planta. Quando é sede, a planta fica com as folhas caídas e a terra seca até ao fundo. Quando é excesso, as folhas de baixo amarelam mesmo com a terra húmida, e a base do caule pode ficar mole. No meu caso, o excesso deu folhas amarelas e moles, sempre as de baixo, e foi subindo pelo caule uma a uma.
Hoje, quando vejo uma folha amarela, não rego por reflexo. Levanto o vaso, mexo na terra com o dedo e olho para a base do caule. Só depois decido. Se a terra está húmida e a folha amarela, o que faço é melhorar a ventilação e esperar, não regar. Metade das vezes o problema resolve-se sozinho quando a terra seca, e a planta volta a crescer sem eu ter feito nada de especial.
O fícus no inverno e o ponto onde paro
Entre novembro e março, com a casa a 12 a 14 °C de madrugada, o meu fícus quase para. Nessa altura rego-o a cada duas semanas, ou menos, e mudo-o de sítio o mínimo possível, porque ele nota: cada vez que o mudei de lugar no inverno, perdeu folhas nas semanas seguintes. Fica na sala, a uns 40 cm da janela a sul, longe do vidro gelado e longe da porta de entrada, onde passa corrente de ar sempre que alguém entra ou sai.
Se aparece uma praga, faço o que faço em tudo: separo a planta, passo as folhas por água corrente por cima e por baixo, corto o que estiver muito atacado e deixo o vaso num sítio com ar a circular. Não uso produtos fitofarmacêuticos, não sei concentrações nem intervalos de segurança, e é aqui que paro. Se ao fim de um mês a planta continuar a piorar, o que faço é pedir a opinião de quem trabalha nisto. Não tenho formação em horticultura e não vou improvisar tratamentos num fícus grande que me custou a recuperar.
O que eu faço, por ordem
- Levante o vaso pelo fundo antes de decidir regar; se estiver leve, está na hora.
- Encha o regador de um dia para o outro, para a água sair à temperatura da casa.
- Regue devagar, à volta do caule e nunca encostado a ele, até a água sair pelos furos.
- Deixe escorrer e esvazie o prato vinte minutos depois, sem deixar água acumulada.
- Em janeiro, estique a rega para cada duas semanas ou menos e não mude o vaso de lugar.
- Se uma folha amarelar, teste a terra e o peso antes de pegar no regador.
- Afaste o vaso do vidro frio e das correntes de ar durante o inverno.
- Com bichos, isole, lave as folhas por água corrente e melhore a ventilação; aqui paro.